Dos manguezais à educação em comunidades tradicionais e ao pertencimento racial, conheça pesquisadoras do Litoral
Assim como ela, pesquisadoras do Litoral do Paraná vêm construindo caminhos, produzindo conhecimento e contribuindo para estudos e descobertas na região. Histórias que mostram que, cada vez mais, o olhar feminino ganha espaço nos laboratórios e nas universidades, ajudando a compreender e transformar realidades.
Na luta pela educação antirracista
A professora na Universidade Estadual do Paraná (Unespar), Marlina Oliveira, é pedagoga, com mestrado e doutorado em Educação, área que tem se dedicado há mais de dez anos. Seus esforços também estão concentrados em algo que ainda permeia a sociedade: o racismo.
Marlina pesquisou sobre como as crianças, desde bebês, são educadas com invisibilidade sobre o seu pertencimento racial. “Outras investigadoras, outras pensadoras já estavam problematizando a educação das crianças desde bebês por meio na educação infantil”, declarou.
A motivação para seguir nessa linha de pesquisa surgiu, segundo ela, da urgência em construir conceitos que ajudem a entender por que o pertencimento racial e a diversidade étnico-racial são invisibilizados no trabalho pedagógico.
“Eu sou uma mulher negra, sou alguém que esteve na escola e nunca me reconheci. A escola não foi um lugar que me trouxe a possibilidade de me reconhecer positivamente como uma pessoa negra, muito pelo contrário, as violências que as crianças sofrem na escola, como o racismo, faz com que elas construam uma identidade extremamente negativa”, abordou Marlina.
Ainda de acordo com a pesquisadora, seus estudos têm ajudado a entender que, desde cedo, as crianças podem se reconhecer de forma positiva, desde que tenham a possibilidade de viver em um cotidiano que contemple uma educação antirracista. Isso pode ocorrer com o reconhecimento nos brinquedos, nas bonecas, na literatura, na música e, até mesmo, na relação interpessoal com professoras negras.
“O racismo educa a criança negra a não se amar, não se gostar, não gostar dos seus traços, do seu cabelo, da cor da sua pele, mas o racismo também educa a criança branca a reproduzir o racismo. Uma educação antirracista oportuniza que todas as crianças, sejam elas negras ou brancas, criem respeito”, enfatizou a professora.
Ciência à serviço da natureza
A oceanógrafa Sarah Charlier Sarubo estuda os manguezais, ecossistemas conhecidos como “berçários da vida”, muito comuns no Litoral do Paraná. Sua curiosidade a fez entrar na área da pesquisa em 2013 e, desde então, não saiu mais. “Querer entender como a natureza funcionava me levou a cursar Oceanografia e entrar no mundo da ciência”, disse Sarah.
No final da graduação, ela realizou o mapeamento de áreas de transição entre os manguezais e restingas de Cananéia (SP), ambientes pouco estudados, mas que, segundo ela, têm importância no contexto de elevação do nível do mar. O que também a fez integrar o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT).
No Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar), realizado no Litoral do Paraná, Sarah tem conseguido dados para conhecer a dinâmica dos manguezais e dar respaldo a políticas públicas. “Já no projeto Guardiões dos Manguezais Parnanguaras, levamos à sociedade informações sobre a importância dos manguezais e buscamos engajar as pessoas para atuar na conservação”, explicou a pesquisadora.
Para ela, estudar os manguezais pode trazer respostas para a degradação da natureza e sobre as mudanças climáticas. “A conservação e a restauração de manguezais têm sido demandas cada vez mais urgentes e necessárias”, completou.
Saberes e Fazeres do Mar
Ainda sobre ciência, meio ambiente e educação, três mulheres no Litoral do Paraná integram o programa de extensão “Saberes e Fazeres do Mar”. As biólogas Lilian Medeiros de Mello e Manuela Dreyer da Silva, e a doutora em Educação Vanessa Marion Andreoli, todas docentes da Universidade Federal do Paraná (UFPR), atuam com ênfase nas comunidades tradicionais
“Nossa atuação na pesquisa acompanha nossas trajetórias acadêmicas desde a pós-graduação, e se consolidou com o ingresso na docência do ensino superior”, explicou o grupo.
O programa “Saberes e Fazeres do Mar” tem como foco a educação popular e a educação do campo, além das relações entre a sociedade e a natureza. As pesquisadoras trabalham nas escolas localizadas em comunidades tradicionais, como em ilhas.
“A gente trabalha nessa perspectiva de fazer valer o direito a uma educação diferenciada por serem comunidades tradicionais”, relatou.
As pesquisas têm contribuído, segundo as docentes, para reconhecer os conhecimentos tradicionais e fortalecer redes entre universidade, escolas e comunidades.
“Ver estudantes se tornarem pesquisadores comprometidos com o território e perceber o reconhecimento das comunidades ao trabalho desenvolvido é uma das maiores realizações profissionais que compartilhamos”, afirmaram.
Elas também deixaram um recado para as jovens seguirem a carreira científica a fim de ampliar o protagonismo feminino na área. “Ninguém faz ciência sozinha. Valorizem o trabalho conjunto, especialmente com comunidades. Se posicionem como mulheres”, ressaltaram as pesquisadoras.